Dec/20

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BILLY, um colosso, uma revolução em nossas vidas

Mais de dois anos foram necessários para tomarmos uma decisão: ter um cão. Eu já tinha tido muitos, e adorava, a Maria Luisa apenas um, e a nossa vida simples em Barcelona pediu uma companhia para a ela, embora tínhamos receio por estarmos sós noutro país! 

Depois de muito estudar, ele chegou por meio de uma transportadora, depois de muitas horas de viagem numa “caixinha de metal” (jaulinha). Um lindo Beagle, de pai inglês e mãe francesa, quase um Lord que em segundos arrebatou nosso coração!

Assustado, sujo, com sede e, certamente, desconcertado por ter sido tirado do lugar comum, de perto da sua mãe e irmãos, ele chegou para viver em um apto minúsculo com dois brasileiros que viviam na Catalunha uma de suas maiores aventuras na vida. Ele chegou para harmonizar, mesmo sabendo que ir provocar enormes turbulências.

Billy, Barcelona 2005.

Em pouquíssimo tempo ele se tornou o rei, o dono do pedaço, dominando o sofá e fazendo o apto ser organizado para ele. E, pensar que nem reclamamos e quando fizemos foi uma queixa rápida e da boca pra fora, pois tamanha beleza e fofura não permitia sentimentos ruins. A verdade é que ele nos preencheu, como poucas coisas na vida. Billy se tornou o galã de Sants, bairro onde morávamos. Bastava sair nas “calles/carrer” que as pessoas paravam para vê-lo, uma lindeza que realmente chamava à atenção!

Por meses, antes de viajar ao Brasil, esse cachorro incrível morou em Lleida e conheceu o extenuante calor e o frio congelante desse lugar.

Billy, foi às praias, montanhas, becos e avenidas, acampou conosco, andou de metrô, trem, ônibus, carro, avião, … Até chip na orelha e passaporte ele tinha.  Ele viajou de ônibus para um festival de circo em Cervera (FADUNITO), dormiu dentro da barraca de camping conosco e se tornou um elemento chave para nossas vidas.

Billy foi um corredor, literalmente, acompanhando-nos quase que diariamente por quilômetros de corrida nas ruas de Barcelona. Dava gosto ver, ele não arregava, pedia mais e imprimia mais velocidade mesmo com as enormes orelhas voando (quase um Dumbo) e a língua as vezes arrastando! Por certo, suas orelhas, desde pequeno até seu último dia, tinham um toque de veludo, muito macia.

Nunca deixou de mostrar seu caráter, reclamando, pedindo, exigindo o que queria. Destruiu mais de uma dezena de chinelos e muitas outras coisas (almofadas, CDs, tênis, tocas e óculos de nadar, livros, canetas, papel higiênico, lixo, fraudas, etc.). Acho que ele queria deixar claro que, se não déssemos afeto e a atenção necessária, e se não brincássemos muito com ele, ele não pararia. Fez ainda, mais de uma vez, xixi na sala, na cama, no sofá, …. E chegou a comer um saco de 2k de ração, compulsivamente. Nesse dia, quando chegamos em casa, lá estava ele cheio como um globo de ar, deitado, roncando. Não podemos deixar de dizer que desde pequeno ele se revelou um GRANDE roncador… parecia um motor 2 tempos em marcha lenta!

Durante anos as migalhas e restos de comida que caiam no chão desapareciam milagrosamente, alias, muitas nem chegavam a cair pois entre a mesa e o chão sempre havia um boca faminta pronta para abocanhar. Billy foi um “faminto incansável”, nunca deixou de querer mais e mais comida. Como disse antes, era compulsivo, como muitos da sua raça e por isso, controlar sua alimentação foi nosso desafio e, parece que funcionou, pois ele viveu muito e bem. Por sorte, sua “dona oficial”, a Malu, sempre usou seu conhecimento e seu rigor de nutricionista para mantê-lo em forma. Ela nuca abaixava a guarda com ele e comigo, que sempre dava umas coisas extras para ele comer. A Malu sempre dizia que essa comida extra causaria dano à saúde do cãozinho, até nos cansava. Devo reconhecer que sem dúvida isso o ajudou a viver mais… a ser saudável!

Já no Brasil em 2006, Billy viajou muito, sempre presente acompanhando-nos nos lugares que nossa família frequentava. De fato, foi um cachorro participante, um membro da família! FIlho “peludo” diziam! Por isso, agradecemos a todo mundo que um dia o recebeu, na casa, na chácara ou até no apto, nosso Billy.

Vale lembrar que ele adorava a chácara dos “Mardegans”, onde chegava, comia churrasco na base de “mendigar” o tempo todo, com aquela carinha de coitado. Ele adorava pois podia circular livremente pelo espaço, frequentar a mata. Da mesma forma, ele adorava quando ficava hospedado na chácara do Sr. Airton, nosso amigo e grande cuidador dele, que nos auxiliou muito quando quisemos sair por nossas aventuras, da qual levar Billy era inviável. Lá ele era mais bicho ainda, selvagem… saltava no lago, corria atrás dos pássaros, rolava na lama e fazia jus à raça, Beagle.

Dentre as milhões de lembranças deixadas por ele, vale registrar aqui algumas delas. Uma vez, correndo com ele na praça de esporte da Vila Jones em Americana-SP, o Billy mostrou suas raízes retornando à sua natureza animal. Em um momento de nosso descuido, ele avistou uma galinha e sem titubear, deixou seu instinto agir, caçando-a e vindo correndo todo feliz com ela na boca. Ficamos desesperados e ele soltou, sem matar, o bichinho.

Um velho mais que elegante!

Nossas filhas nasceram e cresceram, até esse momento com ele. Elas o viram dormir com as patas pra cima, roncando, igualzinho ao Snoopy no teto da casinha. Aprenderam as responsabilidades de quem tem um cão (limpar, brincar, passear, alimentar, acarinhar, …), os dilemas que isso representa, entre eles, dedicar parte do seu tempo de descanso para ele. E, como não poderia ser diferente, também se afeiçoaram a ele. Muito, diga-se de passagem!

Com ele viveram muitas alegrias, de correr na mata próxima a brincar na piscina. E, com ele aprenderam o significado da vida, da mais intensa vivacidade – energia interminável – ao envelhecimento (rápido se consideramos a breve vida dos cães). Viram o “porco” (apelido carinhoso por roncar e fazer “oinc oinc” quando cheirava o caminho) deixar de ser ativo e tornar-se um ancião, quieto, calma, lento, meio surdo e bem cansado. E, assim viveram uma experiência da tragédia da vida, o apagar das luzes. Sim, ele nos ensinou tudo isso e muito mais!

Como não lembrar, orgulhosos e claro, do maior cão farejador que tive a chance de conhecer. Quantos churrascos nós não brincávamos de “esconder um pedaço de carne” para ele mostrar a enorme habilidade de farejar. Simplesmente, extraordinário!

Como não perceber que ele se tornou “nosso dono”, modelando nossos horários, hábitos, instruindo nossa disciplina com sua alimentação e, quando não levávamos à “risca” ele nos lembrava, latindo, pedindo ou, muitas vezes, cobrando! Dizem que o cão se “molda” à família, talvez seja o contrário… ou os dois…

Como não lembrar quando o encontrei na piscina esgotado, no raso – por sorte – e com a cabeça pra fora… sim, ele caiu um dia à noite e só chegamos horas depois. Obrigado à nossa vizinha Mônica por avisar que algo estava errado, pois tinha escutado latidos estranhos. Mas ele superou essa! Ufa!

Como não lembrar dele dormindo com a barriguinha voltada para cima, largado, com as enormes orelhas espalhadas no chão;

Como não lembrar dele raspando a porta da casa todos os dias as 6:00 da manhã para avisar que tinha acordado e queria o café da manhã;

Como não lembrar que, por 16 anos, nos habituamos a leva-lo passear uma ou, mais comumente, duas vezes por dia;

Como não lembrar, assustados, dos desmaios que ele tinha quando saia para namorar (cruzar) e de tanto amor, cansado mas empenhado em seguir jorrando amor, seu corpo se desconectava e ele caia… nossa cada susto… mais isso não impediu de ter muito filhotes.

Como esquecer do seu latido forte, do uivado selvagem que eventualmente surgia, e, mais ainda, do seu poderoso ronco quando dormia.

Impossível não associar seus comportamentos com o Beagle mais famoso, o Snoopy! Folgado, astuto, convencedor, malandro, amigo, carinhoso, … igualzinho!

E, teve um “pintinho” na jornada do Billy conosco. Alicia nos convenceu trazer para casa um pintinho e mesmo relutando, conseguimos um por “empréstimo” de 1 mês. Pensamos que o Billy ia mata-lo, mas devido à sua idade (14 ou 15 nessa época) ele nem deu bola para o pequenino pintinho. Pelo contrário, o amarelinho fez-se amigo dele e juntos andavam pela casa. Saíamos passear o Billy e não é que o pintinho vinha andando atrás. Era motivo de risas e muita gente parando para ver. Em casa, o pintinho queria ficar perto do Billy, dormia junto e algumas vezes, sobre o Billy. Realmente algo incrível.

Billy foi pai, muitas vezes. Era um galanteador, filho e neto de cachorros premiados. E, nós nunca falávamos disso, mas ele tinha um “pedigree” de dar orgulho! Ele foi amigo, pois sempre se deu bem com outros cachorros: o Bolacha, o Chico, a Nina, a Filomena, …

Ele foi uma fábrica permanente de pelos… quem frequentava nossa casa, quem brincava com ele, não ficava imune, sempre tinha seus pelos na roupa, no corpo, na lembrança. Em casa, dizíamos: o Billy fabrica uma peruca por dia, de tanto pelo que todos os dias tínhamos que recolher. Certamente encontraremos pelos deles por meses, como fazemos com os confetes do carnaval.

No dia 23 de Dezembro de 2020, nosso querido Billy Butterfield (Sen de Aliseda, nome de batismo legal – ver site do criador) nos deixou, com seus 16 anos e meio (25/6/2004 – 23/12/2020). Um colosso!!!! Regressou ao mundo das estrelas, ou melhor, regressou para sempre onde sempre se sentiu mais vivo, na natureza!

Não podemos deixar de agradecer às muitas pessoas que ajudaram a cuidar dele durante esse tempo, por um dia ou as vezes por meses (Regina Belloti, Silvana Bortoleto – Felipe, Tiago-, Airton Baseio, Danilo Morales, Daniel Lima, Mariana Aranha, Gabi Credie e família, Mônica, Vanessa e Álvaro, Giovana Costa Emertice, entre outros). A todos vocês nossos sinceros agradecimentos!

Billy, amigo, parceiro, filho peludo, irmãozinho roncador das meninas, porco, fedido, aspirador (das comidas que caiam no chão), patinhas de fandangos (cheiro de queijo), por tudo isso, sentiremos sua falta hoje e sempre! No entanto, viveremos com as milhares de ótimas lembranças que temos de você, Sr. Billy!

IMPORTANTE: Se você tem alguma foto do Billy envie, para que possamos adicionar ao álbum de memória (marco@bortoleto.com)

Mathew, Leticia e Felipe, com o “bilão”.

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