Fev/10

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CRÔNICAS E CRÍTICAS DESTE MUNDO

Para alguns viver somente não basta, é preciso ver, sentir e poder refletir sorbe a vida, para que nossos filhos ao menos tenham a possibilidade de encontrar um mundo mais harmônico e proprício para a vida na sua integralidade. Foi pensando nisso que iniciei algumas reflexões, que podem até soar ingênuas, sem fundamentos ou mesmo, frágeis, porém são o que são, nem mais nem menos: apenas um manifesto pessoal.

 

Vivendo uma grande ilusão.

A história recente do Brasil é recheada de aspirações de transformar este país numa potência internacional. Sensíveis avanços foram conquistados no setor econômico, na política internacional e também em outros quesitos. Mas será que realmente alcançamos níveis mais elevados de civilidade, qualidade de vida e equilíbrio social. Uma observação mais atenta nos meios, na realidade que nos cerca, nos fatos e na vida cotidiana me parece mostrar que estão diante de uma grande ilusão.

Quando vemos que, a medida que um bairro ou uma cidade cresce e ganha maior poder aquisitivo, suas fortificações e medidas de segurança também são multiplicadas, já podemos intuir que algo não funciona tão bem. Arame farpado, cercas eletrificadas, guaritas nas ruas, coletes a prova de balas, segurança privada e até uma produção gigantesca de carro blindados confirmam que esta anunciada prosperidade está associada ao aumento da violência.

Vemos um aumento dos grandes executivos, de cargos políticos e de consultoria com salários incríveis, muitos acima das médias das maiores potências econômicas. Paralelamente vemos o aumento da exploração do trabalho, dezenas de pseudo-escravos balançando bandeiras por horas no sol em troca de alguns reais, dezenas de cortadores de cana miseráveis para fazer girar uma multi-milionária indústria de álcool. Mas um indicador de que as diferenças só crescem, e que o aumento do PIB não se reflete não diminuição acelerada das diferenças sócio-econômicas enraizadas em nosso país.

Seguimos…

Vergonha

Vemos grandes avanços na produção científica brasileira, apesar da sérios enganos com relação a qualidade da pesquisa, seus reais impactos na sociedade e nas políticas que podem garantir sua continuidade. Mas, mesmo com este avanço, vemos o crescimento de cursos fantasmas, faculdades mais parecidas com bares, aulas sem qualquer qualidade… eis mais uma das grandes contradições, que nublam uma visão mais objetiva e realista da sociedade em que vivemos.

E porque não falar da vergonha. Porque vivemos num pais que muitas das profissões, ou tarefas que precisam ser desempenhadas, são olhadas como vergonhosas. Porque ainda pensamos em práticas profissionais mais importantes, em detrimento de outras. Há algum hospital só com a presença de médicos? Há alguma escola que funcionaria sem a presença, nobre e necessária, de seus funcionários… O que seria de um teatro, uma universidade, um restaurante, sem todos os profissionais que permitem sua existência e funcionamento. Nesta lógica, todos somos importantes e todos deveríamos aspirar um reconhecimento por uma atividade bem desempenhada, independentemente se ela é mais ou menos visível, exposta. Todos deveríamos entender que as instituições, e por tanto, nossa sociedade, só funcionaria bem, se cada um realizasse sue trabalho com qualidade e dignidade… Contudo, seguimos numa sociedade que tem vergonha dela mesma, que não luta pela dignidade de seus membros, que almeja o mesmo para todos, o que é insustentável. Não poderemos ser todos médicos, todos professores, todos engenheiros… Nem precisaremos todos ter diploma universitário, pois muitos ofícios não dependem desta formação, mais sim de conhecimentos bem atribuídos e utilizados. Quando a equipe de limpeza ganhar um salário não tão diferente ao dos médicos (desculpe usar este exemplo, outros tantos seriam possíveis, mas este pode facilitar certas racionalizações), talvez teremos uma sociedade com menos inveja, com um reconhecimento mais equilibrado de todos, e assim maior harmonia entre seus cidadãos.

Mais um abismo social que precisamos superar para poder aspirar a uma civilidade que nos permita viver em paz e em comunidade, sem medos, sem guerra civil (esta que vemos na TV e que ninguém admite que existe), sem duvidar que as ruas, as praças são espaços de convivência.

Escravidão urbana

É frequente escutarmos falar de casos de trabalho escravo ou em regimes similares a escravidão. Há uma atividade que se essemelha muito a isso bem diante de nossos olhos. Me refiro a publicidade humana que grandes construturas vêm utilizando para anunciar seus grandes projetos arquitetônicos. Centenas de jovens trabalham para receber alguns reais, sustentando e balançando bandeiras pelas ruas, debaixo de sol escaldante, com alguma água e pouca atenção de quem circula. Como é triste ver mega-empresas explorando jovens necessitados para expor seus grandes negócios. E depois estas empresas falam de qualidade de serviços, respeito aos direitos humanos e atividades sustentáveis…. Nem sempre podemos dizer que algo legalmente estabelecido, como é este tipo de trabalho, é de fato ético, moral e adequado para uma sociedade que pretende a igualdade e a dignidade de seus membros.

Quanto mais tenho mais quero ter

Sim, vivemos numa sociedade do ter, do possuir, de acumular, mesmo e quando nem sabemos o porquê temos, possuímos ou acumulamos. Apesar de vivermos em um país jovem, de poder acompanhar o que aconteceu com civilizações mais antigas, parece que não conseguimos enxergar os problemas enfrentados por aqueles que hiper-valorizaram as posses em detrimento da educação, da saúde e de outros aspectos que permitam uma maior qualidade de vida e uma sociedade mais harmônica. Independente da classe social esta atitude parece imperar, oferecendo-nos uma insustentável realidade. Quantas vezes paramos para pensar em tudo o que possuímos e que raramente ou nunca usaremos, em virtude de já possuir o suficiente. Quantas famílias possuem dezenas de copos, pratos, talheres e outros inúmeros pertences a mais do necessário? Talvez a maioria!
Quantas pessoas possuem mais de um veículo, seja carro, moto ou bicicleta? E logo, vivemos reclamando da necessidade de vias com menor fluxo de carros, de menor gasto de água para lavar carros, e outros tantos transtornos oriundos de excesso, do exagero, do acumulo material!
E o que dizer dos produtos de limpeza, de higiene pessoal, de perfumes, de pequenos objetos ornamentais que se acumulam tanto frequentemente precisam ser descartados em massa para poder dar lugar a outros supérfluos.
E logo, acompanhamos um amplo debate sobre sustentabilidade, sobre cuidado e preservação ambiental, e o único que assistimos é um aumento do consumo.
A coqueluche da atualidade são os equipamentos eletrônicos, objetos que se acumulam as dezenas nas gavetas e armários de grande parte da população… algo que certamente poderia ser minimizado com um consumo consciente e mais reflexivo.
Certamente, grande parte deste acumulo desnecessário poderia ser útil para outros, e caso o consumo fosse menor, a degradação do ambiente também seria, e provavelmente poderíamos ver uma situação menos preocupante com nosso meio.
Enfim, acredito que já é hora, alias, passou-se o tempo, de que façamos mudanças importantes em nossa atitude consumidora, em nossa capacidade de pensar o porque adquirir algo e em sua real necessidade.

Pobreza criativa ou lixo publicitário

Vemos um assustador aumentado nas propagandas agressívas, as vezes incitadoras, contrárias aos valores morais e éticos fundamentais para nossa vida harmônica em sociedade… É nítido como algumas empresas combatem abertamente e de forma vulgar suas concorrentes… nós apenas aceitamos, passivos e inertes a este lixo…. Haja vista uma nova bebida com nome vulgar, associada a imagem de uma pesonalidade (tão artificial quanto vulgar), que despeja milhões em publicidade imunda, apelativa e completamente inadequada a maior parte dos ouvintes…. e ainda acham que temos alguma chance de alcançarmos a vicilidade e o respeito mútuo, típico de uma sociedade equilibrada…. Uma lástima.

Laranja, quase de verdade

Há alguns dias pedi um suco de laranja e me entregaram um recipiente que trazia o seguinte slogan: “feito com carinho”. Por instantes imaginei um pomar (laranjal) lindo, com laranjas sendo colhidas a mão com luvas brancas de algodão, lavadas em água corrente do riacho que descia da montanha, selecionadas e espremidas uma a uma. Logo despertei e lembrei que se tratava de um suco de caixinha, industrialmente produzido. Então me questionei: será que as máquinas, estes autômatos que fazem todo o serviço, já demonstram afeto, carinho e outros sentimentos e eu não me havia interado deste feito. Ou estava diante de um ridículo apelo publicitário, próprio de um rótulo que subestima a inteligência humana e nossa capacidade de discernimento entre algo natural e algo que possui na fórmula diversos componentes do tipo “HD10″, e casualmente também uma pequena quantidade de suco natural de laranja. Há tanta petulância e falsidade nestes anúncios e rótulos que alguns produtos artificiais anunciam que trazem 3 ou 5% de suco natural, como se estivessem contribuindo para uma dieta natural e salutar. Que pena!!!

 

Quase novo! Já nascemos velhos!

Há algum tempo vivemos uma ridícula e doentia realidade quando o assunto é a compra de carros novos. Já nos primeiros meses de ano as montadoras começam a anunciar sistematicamente descontos para a compra dos modelos no ano posterior, ou seja, fazem um lançamento do modelo do ano seguinte entre 8 e 10 meses antes. Com isso criaram um mercado de expectativa, de vaidade, de urgência e naturalmente de desvalorização daquilo que se adquire. Não a mais um modelo do momento, não há um carro que perdure no tempo, apenas uma corrida interminável e com referentes inalcançáveis. Patético! Será que o mercado, os consumidores, aqueles que pagam os acréscimos que esta dinâmica gera, não levantarão a cabeça para propor uma mudança? Será que teremos sempre que comprar um carro 0 km e sentirmos que já estamos conduzindo um veículo do ano anterior, velho, obsoleto ou fora do mercado? Será que viveremos de forma saudável este mundo com esta sensação de urgência e de ter ficado para trás? Enfim, nos transformaram em velhos, em ultrapassados!

 

Escravos e injustiçados.

A escravidão é um fenômeno presente em muitos lugares e em diferentes momentos históricos. Nem sei, se poderíamos falar de algum lugar onde não há ou onde não houve algum tipo de escravidão. O fato é que, apesar de tudo o que tenhamos conquistado de civilidade, modernidade, justiça, normatização social, etc.. ainda é possível ver exemplos de escravidão diante de nossos olhos. Naturalmente as noticias se focam em escravos ou quase-escravos que atuam na exploração do carvão, na extração ilegal de alguma matéria prima, na mão de obra de pequenas empresas, quase sempre em lugares distantes, regiões isoladas, onde há pouca educação, pouca fiscalização, pouca justiça e muita dominação humana, política, econômica e até racial. Porém não é disso que quero tratar agora, mas sim de uma escravidão presente nas cidades, das menores as grandes metrópoles. Me refiro aos suportes humanos de bandeiras e cartazes de divulgação de novos empreendimentos imobiliários ou outras ações propostas por grandes corporações. Jovens, e até crianças, que passam horas no sol, nas ruas, nos semáforos, em troca de alguns reais e que precisam balançar, acenar, rir, e até mostrar-se feliz, divulgando algo que jamais terão oportunidade de viver, de alcançar. Até quando este tipo de trabalho escravo, que certamente subestima a condição humana e explora a necessidade e a falta de oportunidade dignas, para obter uma mão de obra barata e sem nenhum tipo de direito e respeito. Lamentável, porém real e pouco criticado pela sociedade na qual vivemos, que se julga tão avançada!!!!

 

Futebol, esporte e modernidade

Há poucos dias vimos a clube Inter de Milão conquistar a Liga Européia (Champion League) de futebol. O mais curioso da vitória foi que o primeiro jogador italiano deste tradicional time entre em campo aos 45 minutos do segundo tempo. E assim vai o esporte, uma babilônia, muito distante da representatividade regional ou nacional, e muito mais perto da hegemonia dos grandes investidores. E assim vamos, vendo cada vez mais atletas nacionalizados representando outras nações, buscando espaço e conquistando divisas, mas também distanciando de uma das características do esporte internacional: a representação nacional.

 

Lamentável,

É o que penso quando veja um filme nacional anunciado no canal de maior impacto no Brasil, destinado ao público infantile sob o titulo: Os porralouquinhas. Será que diretores, produtores e a sensura não encontraram um nome mais criativo e menos baixo para esta produção… Uma Pena! Uma pobresa! Enfim, mais um exemplo que ajuda a explicar a pobresa cultural que permeia nossa sociedade.

 

Futebol, copa do mundo, extravagância e colapso social

Realmente vivemos o Futebol como nenhum outro fenômeno social e cultural brasileiro. Em tempo de Copa do Mundo algumas de nossas fantasias e esquizofrenias ressaltam permitindo aproximações no mínimo sugestivas. Nas últimas semanas vimos brotar um espírito de congraçamento, de festa coletiva, mas também de atordoamento social e político. Vimos um propício momento para deixar uma eleição presidencial que se aproxima num segundo plano. Vimos como escândalos de corrupção e de incompetência política desapareciam das manchetes da mídia. Assim, voltamos a viver anestesiados e entorpecidos pela euforia futebolística. Logo, projetados por uma economia favorável testemunhamos como o consumo dos produtos alusivos ao futebol e à seleção brasileira tornou-se um ato incontido, quase impulsivo. Na inércia do consumo e da gastança desmedida muito gastaram bem mais do que precisavam para desfrutar de um momento esportivo. Apesar de sentir-me contagiado com a alegria que se transpira neste momento, e mesmo sabendo que seu impacto é insignificante para nossas reais necessidades afetivas e sociais, acredito que há algo de positivo nesta experiência quadrienal. Temos uma nova oportunidade de ver nossos amigos, de ficar com a família, de ensinar nossos filhos o valor de uma nação, a importância de unirmos para uma conquista coletiva. Contudo, há atitudes que precisam ser repensadas, para evitar graves conflitos no futuro. Basta ver como alguns se preocupam mais em exaltar suas cidades, seus clubes, suas paixões, em vez de ater-se apenas as questões da equipe que nos representa. Tanta pobreza tem sua origem numa veneração exacerbada e numa falta de entendimento dos reais valores patrióticos que certamente são mais relevantes quando precisamos incentivar nossos representantes. Enfim, é com estas contradições que o futebol configura-se um fenômeno complexo, apaixonante, que continua causando ansiedade, tensão e muita expectativa num povo que anda bem esperançoso com as conquistas econômicas.

 

Contra as leis da vida

Tenho observado, mais do que gostaria, um movimento intenso onde as pessoas subestimam ou mesmo rejeitam os imperativos da natureza ou da vida social. Nossos tempos exalam informações sobre as conseqüências maléficas do tabagismo, da bebida alcoólica em excesso, do sol em excesso, e tantas outras situações que degradam nosso corpo e portanto, nossa condição humana: de seres vivos. Já não podemos alegar, ou pelo menos a maioria de nós não, sobre tais problemáticas de nossos tempos. Do lado social, vemos como as advetencias sobre deixar filhos e filhas todo o dia em mãos de terceiros (escolas, cursos, praticas esportivas, babas, etc.) vem gerando problemas de comportamento e logo, grandes problemas sociais no futuro. Muitos delegam a educação de seus filhos para outros, sem que isso lhes traga qualquer constrangimento. Logo não entendem porque sua comunicação – e respeito – com seus filhos não funciona como eles imaginavam que deveria. Alguns depositam nos avós a responsabilidade da educação e até da criação, e depois acham que seus filhos vão entender-lhes. Vemos multiplicar-se os casos de gestação após os 40 anos ou em idades ainda mais avançadas. É claro que todos tem direito a esta linda experiência, mas estamos diante de uma condição social impondo-se às biológicas, que certamente tem forças incríveis. Logo vemos as conseqüências: mais e mais bebês prematuros, com inúmeras enfermidades e fragilidades que podem ter ligação com a condição em que foi gestado, etc…. Vemos ainda, como a busca (social) por um corpo bonito faz com que milhares de pessoas freqüentem as praias nos horários que sabemos serem prejudiciais a nossa saúde. Mas, como são extremamente inteligente, se entopem de loções protetoras e se sentem completamente isentas das forças do sol, astro que certamente desconhece os protetores e não perdoa exageros. Enfim, será que ainda está tão obscuro que este desrespeito, ou esta falta de atenção, com as leis da vida e da sociedade estão gerando conseqüências terríveis a nossa vida em comunidade.

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